sábado, 17 de maio de 2014



CRISTINA, SAUDADE DE TI

Cris, quanto tempo!
Estou te escrevendo porque a saudade veio bater no meu peito.
Menina, eu estou tão ausente e já sei que mereço um puxão de orelhas. Tanto tempo faz que não te visito.
Será que te perguntas o que eu ando fazendo? Ou já sabes?
Nós é que não sabemos por onde tu andas.
Um dia tão distante partiste para este mundo estranho e silencioso.
Cris, o coma é algo horroroso.
Para nós é. Nunca sabemos o que acontece contigo de fato.
No começo eu estava sempre por aí, mas a vida vai se modificando, novos rumos vamos tomando. Ficou tudo mais difícil. Não que eu me esqueci de ti.
Hoje senti vontade de te dar um beijo. Um daqueles que eu costumava dar.
Faltava teu olhar que em nada costumava se fixar, mas alguma coisa me dizia que estavas a gostar.
Cristina, quantos anos, não, minha menina? Dezessete anos é um tempo muito grande para nós aqui. Por onde tu andas também é?
Não sei porque, mas sinto que tua alma perambula por outros cantos. Mas que ela vai e volta no teu corpo físico. Será mesmo assim? Estou redondamente enganada? Eu me pergunto e as respostas nunca chegam.
Uma incógnita marcou teu destino, menina linda.
Como sorrias! Como brincavas! O que foi feito daquela jovenzinha encantadora?
Como este mundo é estranho. Tinhas que passar por tudo isso? Nós aprendemos alguma coisa com tudo isso?
Cris, eu não puder ir até aí. Não deu mesmo. Mas de alguma forma eu fui. Sentiste meu beijo? Sentiste meu afago?
Minha querida, eu te amo. Queria tanto te ver despertando deste longo sono.
Que vontade de te pegar no colo, falar baixinho.
Está me ouvindo? Eu te amo, menina. Não estou do teu lado, mas de coração estou.
Fecho os olhos e te sinto. Sei que estamos pertinho uma da outra.
Fui eu que cheguei a ti? Ou foste tu que chegaste a mim?
O importante é que nossas almas se cruzaram. Eu puder sentir.

Meu abraço de luz pra ti.

sonia delsin


PAIZINHO QUERIDO

Faz tempo que não falo contigo assim, paizinho.
Ao pé do ouvido eu te falo baixinho.
Sei que precisaste partir. Que teu tempo tinha se acabado aqui.
Nem por isto estamos distanciados.
Eu tenho te falado. Hoje quero falar um pouco mais. Quero desabafar.
Pai. Depois que partiste teve tanto espinho no meu caminho.
Aquelas pessoas que tu colocavas toda a tua confiança não agiram como esperavas.
Eu creio que sabes disso e de muito mais.
Das coisas que eu nunca soube e nem vou saber.
Mas tu que tudo sabes deves sofrer.
Tinha alguém aonde depositavas todo bem querer.
Pai, eu cansei de sofrer.
Um dia eu falei basta. Vou procurar esquecer.
Esquecer é difícil, mas procuro viver momentos felizes, melhores. Procuro enterrar tudo que me machucou.
Sabe, dia destes um novo espinho no meu peito se enterrou.
Como o mundo é estranho, meu querido.
Como tudo de repente vira nada.
E como nada pode virar tudo.
Sabe. Eu tenho procurado uma vida melhor e tenho encontrado.
Fica aí sossegado que tua filha está progredindo no perdão, na compreensão.
Ela vai crescendo aos poucos.
Faz parte da sua evolução.


sonia delsin


MINHA MÃE QUERIDA

Estou agora me lembrando dos meus tempos de criança.
Lembrando uma mulher bonita. Lindos olhos azuis. Vestida pobremente, mas com ar imponente.
Uma mulher que estava sempre sorrindo e sempre cantarolando.
Podia fazer tempo bom ou ruim que minha mãe era assim.
Toda noite ela ligava um rádio enorme para ouvirmos radionovela.
O dia todo ela trabalhava. Muito mesmo. Trabalho braçal, além de todos os afazeres do lar, do trabalho com os quatro filhos, com a sogra que vivia adoentada.
A guerreira nunca desanimava.
Um a um no colo ela nos pegava, nos acarinhava. Ouvimos a radionovela e depois estórias ela nos contava. Algumas daquelas bem conhecidas das crianças. Outras ela inventava.
Como era criativa!
Com aquelas estórias dela eu viajava, viajava...
Lembro bem que uma de suas estórias fictícias fazia meu irmão chorar.
Mas ela sabia consolar. Dizia que não era pra ele se impressionar.
Era tão só uma estória afirmava, e o mano meio desconfiado a olhava.
Nas noites que faltava energia ela acendia velas e preparava-nos pecinhas teatrais com suas mãos sensacionais.
Sombras na parede e vozes de animais que ela conseguia tão bem imitar.
Ela sempre teve umas mãos quentinhas.
Quantos carinhos aquelas mãos mágicas fizeram.
Esta mulher passou por tanta coisa na vida que nem dá pra contar. Hoje ela está com setenta e seis anos. É muito bonita ainda e forte. Conserva a doçura e o sorriso.
É muito admirada e querida por todos e isto enche meu peito de orgulho.
Os olhos são tão impressionantemente belos.

Minha dona Lina querida fui eu que a escolhi pra minha mãe nesta vida.

sonia delsin


SAUDADE

Sei que em certos momentos a saudade vai ser enorme.
Que vou até chorar.
Mas faz parte.
Tudo faz parte da nossa história.
A forma que nos conhecemos.
Nosso encontro. Reencontro?
Quem sabe.
Meu querido, eu nunca eu o sinto longe.
Nestes anos todos sempre me pareceu estar tão perto.
Mesmo sabendo que a distância física é grande.
Mesmo quando ficamos sem ouvir a voz do outro por tanto tempo.
Nossas mensagens.
Tantas minhas...
Sempre fui exagerada no escrever e você entende isso (ou pelo menos tenta entender).
Eu o sinto próximo a mim, porque sei que o amo.
Porque sei que é a pessoa que mais me alcançou.
Tantas vezes eu mereci broncas e você tinha receio de dá-las.
Entre nós existe algo muito bonito.
É a ternura que sentimos um pelo outro.
A maneira carinhosa que nos tratamos.
Existe mais que isso.
Existe toda uma sensualidade que nos envolve.
Existe a saudade e nossos encontros são especiais.
Tomara que possamos desfrutar muitos mais momentos bons como aqueles que tivemos no último encontro.


sonia delsin



UMA CONVERSA COM UM AMIGO

Jesus, eu não sei rezar.
Não sei rezar com palavras decoradas.
Em horas estipuladas.
Eu rezo nas horas mais inesperadas.
Só sei entregar meu coração numa oração.
Eu quando penso em Maria já imagino seu manto enxugando meu pranto.
Já a imagino me acariciando com sua mão e aliviando meu coração.
Jesus, em certos momentos contigo eu entro em sintonia.
Sinto no peito grande alegria.
É assim que sou e tu sabes disso.
Não acredito em inferno, em paraíso...
Acredito no amor, acredito num mundo mais bonito.
Meu amigo querido.
Eu te vejo como um ser iluminado.
Um homem encantado.
Mas não consigo crer em tanta coisa que se prega.
Decepciono-me com tanta gente que se nega.
Mas tento compreendê-los e entender este mundo.
Tento sempre buscar o profundo.
Sabes talvez mais de mim do que eu.
Imagino que sabes tudo que quero e espero.
Então, meu querido amigo, não costumo pedir. Costumo esperar...
Se for pro bem e de todos, que venha.
Aceito o que tiver pra mim reservado.
Tudo que posso, eu tenho dado.
Gosto de ir vivendo. Aprendendo.
Oferecendo.
E acima de tudo sorrindo, porque acho o sorriso lindo.
Acho que quando eu sorrio portas estou abrindo.
Jesus. Estou conversando contigo.
Sabes que gosto de rezar assim.

Porque desta forma te sinto pertinho de mim.

sonia delsin



MEU PAI


Pai, desde menina sempre o amei demais; nada mais normal do que os filhos amarem os pais.
Sempre eu soube que o amava intensamente, mas só agora depois de sua morte é que me dei conta do quanto esse sentimento é imenso.
Querido, juntos nós partilhamos momentos incríveis, momentos só nossos.
Os últimos dias de sua vida foram tão sofridos e mais que nunca estivemos unidos numa cumplicidade envolvente.
Senti cada dor sua como se fosse em mim e se pudesse doaria minha vida para que você não se fosse.
Eu o proibia de ir-se e queria agarrar com as mãos a vida que lhe fugia.
Nunca esquecerei os últimos momentos de sua vida terrena e as frases que mal conseguiu balbuciar.
Assisti sua morte, vi e compartilhei de seu terror inicial e assisti perplexa a transformação do seu semblante atormentado pelo sofrimento dos dias que antecederam sua morte, num semblante aliviado e sereno.
Senti tamanha dor em meu peito, como se dali fosse arrancado um pedaço com força brutal.
Impotente só pude vê-lo partindo para uma viagem sem volta.
Senti o quanto a vida humana é frágil e confirmei mais uma vez que não somos os donos de nada aqui.
Pai, eu que partilhei de seus últimos momentos de vida sei com certeza que você foi para um outro plano, abandonou a matéria que já não lhe servia de nada.
Sei que de algum lugar está me vendo e talvez lendo essas frases onde tento desabafar um pouco minha dor.
Eu me doei inteira e trocaria minha vida pela sua, mas os desígnios de Deus são perfeitos. Era a sua hora, pai. Era.
Eu que assisti sua morte sei que ela foi tão tranqüila, sei que você se foi suavemente como nunca foi uma pessoa tão suave.
Está doendo muito ainda, a ferida está sangrando.
Com o tempo essa dor vai ser suavizada, eu sei. Mas por enquanto está doendo tanto!
Cada cantinho de sua casa me traz uma lembrança. Sinto falta de nossos papos, falta de seus olhos, sua voz.
Meu querido, eu tento entender a vida, a morte. Sei que todos nós precisamos atravessar os umbrais da morte, mas está sendo tão duro para mim.
Sobre a minha estante da sala há uma foto onde você me levava de braços dados até o altar vestida de noiva, e estava na foto trazendo no rosto um doce sorriso.
Dói olhá-la, mas não adianta guardá-la para não sofrer, porque mesmo sem a foto ali eu posso me recordar de tantos momentos nossos a toda hora, momentos que me trazem de volta o paizinho que não se entregava por inteiro, que se negava a aceitar carinhos, que se negava a dá-los.
Pai, naquele dia você me levava até o altar e nossos corações num só compasso iam aos pulos. Sabe, o quanto aquele foi um dia especial em minha vida?
Nunca pensei que a distância que separavam a porta da matriz de nossa terra até o altar principal pudesse ser tamanha!
Tantas vezes eu havia caminhado por ela e mesmo assim era uma coisa muito louca.
Tantas pessoas conhecidas, tantos amigos, parentes.
Seu braço trêmulo onde eu me apoiava e nossos passos idênticos.
Lá no altar me aguardava um homem especial, o homem que eu amava mais, depois de você. Um homem que poria outro rumo em minha vida.
Será que você pressentia que eu estava tão feliz e ao mesmo tempo tão apreensiva?
Será que você, com toda sua sapiência, já pressentia que meu caminho seria cheio de flores e pedras?
O que será que você pensava naquele meu momento mágico em que caminhávamos de braços dados?
Será que você se sentia satisfeito por me ver tão feliz ou temia pelo meu futuro?
Você nunca dizia o que pensava, era uma  incógnita.
Será que dizia à mãe o que se passava em seu coração?
Você se emocionou muito naquele dia, isso eu pude sentir.
Por que você nunca se abria? Por que você não deitava a cabeça em meu colo e admitia que precisava de meu carinho?
Só naqueles últimos dias de sua vida você admitiu que meu amor era um bálsamo para curar suas feridas, meu carinho foi importante para seu final de vida.
Nunca vou me esquecer de seus olhos buscando respostas nos meus. Nunca vou me esquecer de suas mãos se agarrando às minhas em busca de consolo.
Pai, eu sentia que você me pedia para ajudá-lo a recuperar a vida que lhe fugia e eu só pude assistir suas dores e seu sofrer.

Impotente, só pude vê-lo morrer.

sonia delsin


PAI

Seus olhos tristes dos últimos anos feriam.
Sim, feriam as fibras de meu coração.
Por tantas vezes eles me pediram socorro.
E eu não sabia o que podia fazer por você.
Eu lhe dava o meu amor.
Mas ele não bastava.
Porque você precisava de muito mais.
Pai, você precisava de si mesmo.
De encontrar sua paz.
Fecho os olhos e ainda vejo os seus.
Duas feridas.
Lembro-me dos meus tempos de menina.
Como eu o temia.
Você era o meu ídolo, meu herói maior.
Para mim era quase um deus.
Era tão difícil aceitar tanto não.
Quantas vezes me rebelei com você, no meu íntimo.
Naquele tempo havia muito respeito entre pais e filhos.
Eu não era uma rebelde assumida.

E desejava ser sua filha preferida.

sonia delsin