MEU PAI
Pai,
desde menina sempre o amei demais; nada mais normal do que os filhos amarem os
pais.
Sempre
eu soube que o amava intensamente, mas só agora depois de sua morte é que me
dei conta do quanto esse sentimento é imenso.
Querido,
juntos nós partilhamos momentos incríveis, momentos só nossos.
Os
últimos dias de sua vida foram tão sofridos e mais que nunca estivemos unidos
numa cumplicidade envolvente.
Senti
cada dor sua como se fosse em mim e se pudesse doaria minha vida para que você
não se fosse.
Eu
o proibia de ir-se e queria agarrar com as mãos a vida que lhe fugia.
Nunca
esquecerei os últimos momentos de sua vida terrena e as frases que mal
conseguiu balbuciar.
Assisti
sua morte, vi e compartilhei de seu terror inicial e assisti perplexa a
transformação do seu semblante atormentado pelo sofrimento dos dias que
antecederam sua morte, num semblante aliviado e sereno.
Senti
tamanha dor em meu peito, como se dali fosse arrancado um pedaço com força
brutal.
Impotente
só pude vê-lo partindo para uma viagem sem volta.
Senti
o quanto a vida humana é frágil e confirmei mais uma vez que não somos os donos
de nada aqui.
Pai,
eu que partilhei de seus últimos momentos de vida sei com certeza que você foi
para um outro plano, abandonou a matéria que já não lhe servia de nada.
Sei
que de algum lugar está me vendo e talvez lendo essas frases onde tento
desabafar um pouco minha dor.
Eu
me doei inteira e trocaria minha vida pela sua, mas os desígnios de Deus são
perfeitos. Era a sua hora, pai. Era.
Eu
que assisti sua morte sei que ela foi tão tranqüila, sei que você se foi
suavemente como nunca foi uma pessoa tão suave.
Está
doendo muito ainda, a ferida está sangrando.
Com
o tempo essa dor vai ser suavizada, eu sei. Mas por enquanto está doendo tanto!
Cada
cantinho de sua casa me traz uma lembrança. Sinto falta de nossos papos, falta
de seus olhos, sua voz.
Meu
querido, eu tento entender a vida, a morte. Sei que todos nós precisamos
atravessar os umbrais da morte, mas está sendo tão duro para mim.
Sobre
a minha estante da sala há uma foto onde você me levava de braços dados até o
altar vestida de noiva, e estava na foto trazendo no rosto um doce sorriso.
Dói
olhá-la, mas não adianta guardá-la para não sofrer, porque mesmo sem a foto ali
eu posso me recordar de tantos momentos nossos a toda hora, momentos que me
trazem de volta o paizinho que não se entregava por inteiro, que se negava a
aceitar carinhos, que se negava a dá-los.
Pai,
naquele dia você me levava até o altar e nossos corações num só compasso iam
aos pulos. Sabe, o quanto aquele foi um dia especial em minha vida?
Nunca
pensei que a distância que separavam a porta da matriz de nossa terra até o
altar principal pudesse ser tamanha!
Tantas
vezes eu havia caminhado por ela e mesmo assim era uma coisa muito louca.
Tantas
pessoas conhecidas, tantos amigos, parentes.
Seu
braço trêmulo onde eu me apoiava e nossos passos idênticos.
Lá
no altar me aguardava um homem especial, o homem que eu amava mais, depois de
você. Um homem que poria outro rumo em minha vida.
Será
que você pressentia que eu estava tão feliz e ao mesmo tempo tão apreensiva?
Será
que você, com toda sua sapiência, já pressentia que meu caminho seria cheio de
flores e pedras?
O
que será que você pensava naquele meu momento mágico em que caminhávamos de
braços dados?
Será
que você se sentia satisfeito por me ver tão feliz ou temia pelo meu futuro?
Você
nunca dizia o que pensava, era uma
incógnita.
Será
que dizia à mãe o que se passava em seu coração?
Você
se emocionou muito naquele dia, isso eu pude sentir.
Por
que você nunca se abria? Por que você não deitava a cabeça em meu colo e
admitia que precisava de meu carinho?
Só
naqueles últimos dias de sua vida você admitiu que meu amor era um bálsamo para
curar suas feridas, meu carinho foi importante para seu final de vida.
Nunca
vou me esquecer de seus olhos buscando respostas nos meus. Nunca vou me
esquecer de suas mãos se agarrando às minhas em busca de consolo.
Pai,
eu sentia que você me pedia para ajudá-lo a recuperar a vida que lhe fugia e eu
só pude assistir suas dores e seu sofrer.
Impotente,
só pude vê-lo morrer.
sonia delsin